Plantação de soja no Brasil ocupa área maior que a Itália, diz estudo

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Imagens de satélite feitas entre 1985 e 2020 e analisadas pelo MapBiomas revelaram aos pesquisadores que houve uma grande expansão da agricultura no Brasil neste período de 35 anos. Áreas de lavouras como soja e milho, por exemplo, triplicaram. As plantações de soja já ocupam uma área maior que a Itália e comparável à de países como República do Congo, Vietnã ou Malásia. Lavouras como de café e citrus também tiveram um crescimento semelhante, segundo o estudo, de 2,7 vezes. Além disso, ás áreas de silvicultura — estas que consistem numa ideia de desenvolvimento mais sustentável — quintuplicaram. Os dados, antecipados pelo GLOBO, serão revelados nesta quarta-feira (20) pela ONG.

O estudo concluiu que a área total de agricultura mapeada no Brasil passou de 19 milhões de hectares em 1985 para 55 milhões de hectares em 2020 — um crescimento expressivo, de 189%. Desse total, destaca-se a soja, que sozinha ocupa 36 milhões de hectares, o equivalente a 4,3% do território nacional. Metade dela é cultivada no Cerrado brasileiro, onde a commodity avançou sobre 16,8 milhões de hectares desde os anos 1980 — uma conhecida ameaça à rica paisagem original .

Na Amazônia, por sua vez, a análise conclui que o crescimento da soja se deu a partir do início dos anos 2000 e somou 5,2 milhões de hectares. Lá, o recente avanço sobre vegetação nativa pode ser observado no lavrado – área com características de cerrado que existe dentro do bioma no estado de Roraima. Outros 26% da área de soja do país ficam na Mata Atlântica, onde a soja se expandiu por 7,9 milhões de hectares entre 1985 e 2020.

É no cerrado, aliás, que o estudo afirma que quase metade de toda a agricultura do Brasil está concentrada: 42%. No período de 35 anos levado em consideração no estudo, o cerrado brasileiro teve um crescimento de 464% na atividade agrícula.

Para Moisés Salgado, coordenador técnico do Mapbiomas e de tecnologia do Agrosatélite, que participou da pesquisa, é preciso foco na conservação das áreas nativas, que ainda não foram exploradas, sobretudo no cerrado.

— De forma geral, o que se percebe em todos os biomas é que não há necessidade de converter vegetação natural em áreas lavráveis porque já há muita terra aberta com aptidão agrícola e o Cerrado não é exceção — comentou. — Com exceção da Amazônia e Mata Atlântica, os demais biomas possuem poucas unidades de conservação demarcadas, o que dificulta o trabalho de recuperação das paisagens. Isso reforça a necessidade de conservação das áreas de vegetação nativas restantes, especialmente do Cerrado, que já perdeu metade de sua cobertura original.

O estudo pondera ainda que outros levantamentos apontam que o cerrado, bioma de maior crescimento da agricultura e que tem maior área dedicada à atividade, é também um dos mais frágeis às alterações do regime pluviométrico, qu esão causadas pelo desmatamento na Amazônia. Os dados mostram que o cerrado é também uma das regiões de maior risco climático. No último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima ( IPCC, sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), há previsão de uma redução de 20% das precipitações na área central do Brasil, com um aumento de 4 graus a 5 graus da temperatura, cenário que os pesquisadores acreditam que ainda irá comprometer as atuais atividades agrícolas na região.

Dentro do Cerrado, a dinâmica de ocupação da terra varia entre os estados com áreas consolidadas há mais tempo e o Matopiba, de ocupação mais recente. Na fronteira entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o avanço da agricultura sobre vegetação nativa é mais intenso, entre 2000 e 2020, considerando intervalos de 5 anos, 76% da expansão da agricultura na região se deu sobre vegetação nativa; nos demais estados do bioma, esse percentual é inferior a 10% considerando o mesmo período.

A evolução da área irrigada no Brasil também é contemplada no mapa, que mostra um crescimento de 293%, passando de 819 mil hectares em 1985 para 3.217 mil hectares em 2020. A área de irrigação por pivôs centrais, que respondia por apenas 8,5% do total de área irrigada em 1985, é responsável por 45,7% em 2020. Nesse período, a superfície de água do país teve uma retração de 3,1 milhões de hectares. Desde o começo dos anos 1990, os pesquisadores afirmam que o Brasil perdeu 15% de sua superfície de água. As bacias hidrográficas com maior índice de uso de água por pivô central são Paracatu (MG), Alto São Francisco (BA) e Alto Paranapanema (SP), as três com retração da superfície de água nas últimas três décadas. Moisés Salgado reforça que esse tipo de prática esbarra justamente na crise hídrica vivida pelo país.

— Embora a irrigação seja a alternativa para o agricultor quando há deficiência hídrica, ela não é autorizada em casos de crises, como a que o país enfrenta agora. A tendência é de diminuição da água no Brasil, por isso o uso mais conservador da água na agricultura é fundamental para o sucesso futuro da atividade — ponderou.

O levantamento do MapBiomas mostra ainda que, no caso da cana de açúcar, o crescimento da área mapeada foi de 291% entre 1985 e 2020, ano em que essa lavoura ocupava 9 milhões de hectares. As áreas de café foram mapeadas no estados com maior área plantada, como Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia, Paraná e Goiás. No total, as imagens de satélite mostraram que houve um crescimento da área mapeada em 43% nas últimas três décadas, chegando a 804 mil hectares em 2020.

Já em relação ao cultivo de citrus, o levantamento, feito no estado de SP, mostra um total de 31 mil hectares em 2020. A silvicultura, que teve um crescimento de cinco vezes na área mapeada, passou de 1,4 milhões de hectares em 1985 para 7,5 milhões em 2020. Os estados com maior área mapeada, segundo a pesquisa, são Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.

Fonte: Agência O Globo



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