Na Unipar, a virada levou cinco anos

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Num mercado financeiro que gosta de viradas, mas que costuma se concentrar na foto e não no filme, a Unipar foi uma aposta longa, que está rendendo bem para quem colocou as fichas em um então azarão. Maior produtora de soda cáustica da América do Sul e uma das líderes também em venda de PVC, a companhia tem comemorado uma sequência de bons resultados e, no ano, a ação acumula alta de 38% e, em 12 meses, 137% (o Ibovespa acumula queda de 12%).

Parte dos bons resultados tem a ver com a pandemia, que elevou preços e favoreceu a indústria, mas as mudanças estruturais e aquisições concluídas nos últimos anos, bem como um choque de gestão, foram fundamentais para virar o jogo na companhia. No primeiro semestre deste ano, a Unipar acumulou um Ebitda de quase R$ 1 bilhão, equivalente à geração de caixa de todo o ano de 2020. Somente no segundo trimestre, a companhia multiplicou por 13 seu lucro em relação ao ano anterior, alcançando R$ R$ 247 milhões, anunciando uma distribuição de dividendos de R$ 300 milhões a seus acionistas.

Trata-se do maior dividend yield da bolsa no período de um ano até outubro, de 28,6%, segundo a Economatica — superando o índice da Vale, com 23,6%. Na quinta-feira que vem, dia 11, a Unipar divulga os resultados do terceiro trimestre, num ano em que consolida a melhora de resultados vista em 2020.

Diante da alta demanda na indústria química como um todo, a companhia trabalha com margens melhores e alcançou uma situação confortável de caixa. “Nos últimos anos, nos concentramos na recompra de ações e pagamento de dívidas. Hoje, nossa dívida líquida é negativa, então decidimos distribuir os resultados aos acionistas”, conta Maurício Russomanno, CEO da Unipar desde o início do ano passado.

O executivo chegou à companhia em setembro de 2018, como COO, um ano após a Unipar decidir encerrar o contrato com a Estáter. A consultoria havia sido contratada em 2016 para organizar a casa após um envolvimento do então CEO, hoje presidente do conselho, Frank Geyer na Lava-Jato. Geyer havia assumido a cadeira de chairman em 2008 com a missão de modernizá-la após outras gestões da família e, depois também como CEO, engendrou uma jogada ousada com a Petrobras para a formação da petroquímica Quattor – que sete anos depois foi vendida à Braskem envolvendo pagamento de propina e caixa dois, segundo delação premiada do empresário.

A gestão terceirizada transformou a Unipar em um dos principais cases de gestão da Estáter, assumida à época pelo sócio-fundador Pércio de Souza, que passou temporariamente a ser o dono dos direitos das ações do controlador. Anos antes, a assessoria financeira tinha ajudado a Unipar na negociação da Carbocloro e na composição da Quattor.

A Unipar já era geradora de caixa, mas a governança esfriava o interesse dos investidores e potenciais sócios. Naquele momento, seu valor de mercado girava em torno de R$ 400 milhões. A entrada da Estáter foi fator decisivo para a aquisição da Solvay Indupa em 2016, negócio que colocou a Unipar em evidência no ramo de PVC. A empresa belga tinha colocado como condição de negociação a troca de comando na potencial compradora — uma pressão que também vinha dos bancos credores. Depois de coordenar uma auditoria na própria Unipar, Souza amarrou o negócio com a Solvay para quitação em 10 anos, com cinco de carência. Reestruturada, a operação da Solvay quadruplicou o Ebitda em dólares em dois anos.

A Estáter poderia ficar no comando da empresa até o ano que vem, pelo contrato inicial, mas a temporada foi bem mais curta. Com o acordo com a Justiça e o apoio de acionistas como Luiz Barsi, Geyer decidiu pelo não fechamento de capital da Unipar, que era previsto nos planos firmados com a Estáter. A assessoria encerrou a gestão ainda em 2017, mas a transformação feita no negócio ajudou a firma de Souza engatar a atuação como consultoria de gestão a diferentes empresas com diferentes desafios. Geyer retomou a cadeira de chairman.

“Esse é um tema para o conselho. Foi uma decisão do board e o processo foi encerrado na época. Como data de antes da minha gestão, não consigo dar detalhes”, diz Russomanno, que garante estar promovendo, entre diversas mudanças estruturais, uma transformação na cultura da empresa. “O nosso grande objetivo é ser reconhecido como uma empresa confiável, o que não quer dizer que não vamos cometer erros. Estamos abertos e transparentes.”

Com os bons ventos, a controladora da Unipar chegou a avaliar propostas para uma fusão este ano, mas a holding Vila Velha, de Geyer, decidiu buscar o potencial de crescimento sozinha. “Todo o processo foi público e, no fim, não houve interesse em prosseguir com nenhuma das opções que apareceram”, diz o CEO da Unipar. “Não estive envolvido diretamente, mas posso falar que a Unipar está sempre olhando ativamente para opções de crescimento. Sabemos, por exemplo, que vamos entrar na região Nordeste em breve, com alguma aquisição ou nova fábrica”, conta.

A Unipar tem investido também em ESG — um dos cinco pilares da gestão de Russomanno, que incluem ainda foco em crescimento, competitividade internacional, gestão de pessoas e a transformação da cultura corporativa. Há alguns meses, a companhia abriu uma joint venture com a AES Brasil e a Atlas Renewable Energy, para a construção de um parque eólico e outro solar. A ideia é produzir a maior parte da energia consumida pela Unipar.

“A gente percebeu que precisava melhorar a matriz de carbono, ainda antes da crise hídrica. Como parte da indústria química, muitas das medidas que outros setores estão adotando só agora já faziam parte da operação, como a questão do controle de emissões e tratamento de resíduos”, diz o CEO.

Com um estilo de gestão mais despojado, Russomanno quer que a Unipar mude de figura tanto dentro quanto fora do prédio. “A Unipar era uma empresa muito conservadora. A aproximação da liderança com a equipe mudou o clima”, avalia. O executivo conta que passou a dar voltas pelos corredores e tomar mais cafezinhos. “Nós precisamos ser muito bons de comunicação. Dentro e fora da organização.”

Hoje a companhia vale R$ 7 bilhões em bolsa e já chegou a passar de R$ 9 bi. A casa arrumada também ajudou a reduzir o custo de dívida nos últimos anos. No início de outubro, o conselho aprovou uma captação de R$ 500 milhões em debêntures, a CDI mais 2,10%. O desfecho positivo aconteceu para poucas empresas que se viram envolvidas na Lava-Jato – muitas encolheram e mudaram de nome -, capítulo que a Unipar quer deixar de vez no passado.

Na avaliação da Fitch, as margens operacionais da Unipar deverão apresentar substancial melhora no consolidado de 2021, beneficiadas por um ambiente muito positivo de preços e pela continuidade de um real depreciado — quase 80% da receita é atrelada ao dólar, contra apenas 40% dos custos. A projeção é de um Ebitda de R$ 2,1 bilhões este ano e de R$ 1,4 bilhão em 2022, com margens de 38% e 28%, respectivamente, superiores à média de 23% registrada de 2016 a 2020.

A queda esperada pela Fitch em 2022 reflete um retorno gradual dos preços a médias históricas, o que a Unipar vai tentar compensar com o plano internacional e a eficiência de custos. Sem cobertura fixa de casas de research, os relatórios sobre a companhia são basicamente de agências de rating. Atrair de volta os analistas também pode ser uma missão para a gestão de Russomanno.

Fonte: Pipeline Valor



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